CulturaDestaque

Quando uma mulher tira versos, a Amazônia encontra uma nova voz

*Por Dora Tupinambá

Há vozes que cantam. Há vozes que narram. E há vozes que mudam a história.

Quando Márcia Siqueira tirou versos no Bumbódromo, muita gente ouviu apenas uma bela interpretação. Eu ouvi algo maior. Ouvi um tempo novo encontrando lugar dentro de uma das tradições mais antigas do Festival de Parintins.

Mas este texto não é apenas sobre Márcia.

É sobre o que o Festival de 2026 está nos dizendo.

Logo no início da minha carreira como jornalista, descobri Parintins. Não foi apenas uma pauta. Foi encantamento. Como tantos profissionais da minha geração, acompanhei viagens, transmissões, coberturas, madrugadas de trabalho e o esforço coletivo de levar aquela festa da ilha para Manaus, para o Amazonas inteiro, para o Brasil e, depois, para o mundo.

Tivemos o privilégio e a responsabilidade de ajudar a contar uma história que já era grandiosa antes mesmo de ser reconhecida como tal.

Ao longo dos anos, vi o Festival crescer. Vi alegorias desafiarem a engenharia. Vi artistas se tornarem mestres. Vi a televisão descobrir Parintins. Vi o Brasil se encantar com um espetáculo que sempre foi gigante, mesmo quando ainda parecia distante para quem olhava de fora.

Mas talvez a maior transformação não tenha acontecido apenas nas alegorias, nas luzes ou na tecnologia.

Ela aconteceu nas vozes que passaram a contar essa história.

Quando uma mulher tira versos, ela não ocupa apenas um espaço artístico. Ela atravessa uma fronteira simbólica. Durante muito tempo, as mulheres foram inspiração, beleza, emoção e presença indispensável no Festival. Mas nem sempre estiveram no comando da palavra, da narrativa, do improviso, do lugar de onde se conduz a cena.

Por isso, ver Márcia Siqueira emprestar sua voz a um momento de tamanha força carrega um significado que ultrapassa a disputa da arena. É como se muitas mulheres amazônidas também encontrassem ali uma nova forma de existir dentro da tradição.

E quando essa voz feminina dialoga com a força de Isabelle Nogueira, com a imagem da cunhã que carrega ancestralidade, beleza, resistência e pertencimento, o Festival nos mostra que não está apenas repetindo sua própria história. Está escrevendo novos capítulos.

O que vimos até aqui em Parintins não é apenas uma sucessão de grandes espetáculos. É uma mudança de narrativa. A Amazônia parece falar cada vez mais com a própria voz: feminina, indígena, cabocla e profundamente enraizada em seu território.

Durante muito tempo, a Amazônia foi contada por quem a observava. Hoje, ela começa a ser narrada por quem nasceu dela.

Essa mudança aparece nas vozes femininas, nos corpos indígenas que já não são apenas representados, mas afirmados, nos artistas amazônidas que dominam a cena, nos mestres da cultura popular, nas mãos das costureiras, bordadeiras, artesãos, compositores, coreógrafos e trabalhadores invisíveis que sustentam a grandeza do espetáculo.

Parintins continua sendo disputa. E precisa ser. A rivalidade entre Garantido e Caprichoso é parte da alma do Festival. Nunca tive dúvida de uma verdade simples e profunda: não existe Garantido sem Caprichoso. Não existe Caprichoso sem Garantido.

Um desafia o outro. Um inspira o outro. Um obriga o outro a ser melhor. É dessa rivalidade que nasce a excelência. É dessa paixão dividida em vermelho e azul que a cultura amazônica se fortalece e se projeta para o mundo.

Por isso, quando um boi avança, toda a cultura avança junto.
Escrevo estas linhas como jornalista, mas também como mulher amazônida. Como alguém que viu o Festival atravessar fronteiras e ganhar o Brasil sem perder o cheiro da ilha, o som dos tambores, a fé da galera e a força de seus artistas.

Depois de tantos Festivais, continuo me emocionando.

Não apenas pelo espetáculo.

Mas porque compreendo que Parintins ainda tem a capacidade rara de se reinventar sem deixar de ser quem é.

Talvez seja cedo para saber quem levantará o troféu de campeão. Mas uma coisa o Festival de 2026 já conquistou: mostrou que tradição não é permanecer igual. É ter coragem de continuar verdadeira enquanto o tempo muda ao redor.

E, neste ano, a verdade de Parintins tem voz de mulher, tem rosto indígena e tem o coração profundamente amazônico.

Porque, no fim das contas, o maior vencedor nunca será apenas um boi.

Será sempre a cultura amazônica.

(*) Dora Tupinambá é jornalista e comunicadora amazonense. Com mais de 40 anos de experiência na imprensa, atua na produção de conteúdo, assessoria de comunicação e estratégias para mídias digitais. Especializada na cobertura de temas de interesse público, cultura, política, meio ambiente e empreendedorismo, acredita no jornalismo como instrumento de informação qualificada, preservação da memória e fortalecimento da cidadania.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *