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Progressistas e minorias renovam democratas em vitória sobre Trump

Por Redação · 4 de novembro de 2026
Democrat Keisha Lance Bottoms celebrates winning Georgia's race for governor and becoming the first Black woman elected governor of a US state, during an election night rally for the US midterm elections in Atlanta, Georgia, US, November 3, 2026. REUTERS/Taylor Edgerton

A vitória democrata nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, as Midterms, foi marcada por lideranças jovens, de minorias étnicas ou religiosas e com discurso progressista.

Esse retrato renova a imagem que saiu desgastada da derrota para Donald Trump em 2024, quando o partido estava fortemente associado às elites econômicas e era criticado por um suposto abandono das pautas dos trabalhadores norte-americanos.

Em entrevista à Agência Brasil, o doutor em ciência política Juliano Machado Pires atribuiu a avaliação ruim que o Partido Democrata tinha, em 2024, à decepção com o governo de Barack Obama (2009-2017).

“A população tinha muitas expectativas com o governo Obama. Com a crise dos bancos, em 2008, Obama salvou os bancos, mas não salvou a hipoteca da população. Uma parcela das pessoas se sentiu traída e ficou com a sensação de que os dois partidos davam no mesmo na hora de proteger os direitos econômicos das pessoas”, explicou.

A professora de relações internacionais Camila Vidal, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), destacou que o pleito de 2026 elegeu um número expressivo de democratas que são de fora da “elite” da legenda.

“São indivíduos que têm uma agenda muito mais progressista, em alguns casos até socialista, enfatizando melhores condições de vida para a classe trabalhadora, saúde universal e gratuita para todos”, comentou à Agência Brasil.

O resultado fez o Partido Democrata eleger senadores e deputados em estados e distritos onde perdeu sucessivas eleições nos últimos anos, como o Texas. Com isso, tanto o Senado quanto a Câmara passaram a ser majoritariamente ocupados pela oposição à Donald Trump, do Partido Republicano.

Pioneiros 

Entre os nomes de destaque, estão a primeira mulher negra da história dos EUA a ser eleita governadora, Keisha Lance Bottoms, pelo estado Georgia; a primeira governadora indígena, Deb Haaland, pelo Novo México; e o primeiro senador abertamente homossexual, Chris Papas, eleito por New Hampshire.  

 

Deb Haaland se tornou a primeira mulher indígena a ser eleita governadora nos Estados Unidos Foto: Reuters/Jasper Colt/Proibida reprodução

Em seu discurso, a governadora eleita pela Georgia dedicou a vitória às pessoas que não têm acesso a serviços de saúde e de educação, devido ao alto custo de vida nos EUA.  

“Esta vitória é para o cuidador que não tem condições de arcar com despesas de saúde e precisa que a Georgia finalmente amplie o Medicare [principal programa público de saúde dos EUA]”, disse Keisha Bottoms.

O professor de história da Universidade de Brown, dos EUA, James N. Green, explicou à Agência Brasil que, nos EUA, os dirigentes partidários locais têm bastante flexibilidade para definir a política do estado, o que contribuiu para essa renovação.

“A diversidade do Partido Democrata deu essa flexibilidade de candidatos diversos, que podiam atrair uma base da população, combinada com uma política horrível do governo de Trump, que incentivou muitas pessoas a romper com ele e apoiar os democratas”, avaliou.

Evangélico progressista

Outro nome de destaque foi o vencedor ao Senado pelo Texas, James Talarico, que derrotou os republicanos pela primeira vez em quase 40 anos no estado.

Essa também foi a primeira vez que o Texas elegeu uma governadora latina, Gina Hinojosa, após décadas de hegemonia do partido Republicano.

Com 37 anos, James Talarico articula um discurso religioso com a defesa dos mais necessitados e da justiça social. Ele é filho de pastor e seminarista presbiteriano.

“O presidente dos EUA disse que eu insultei Jesus. Sabe o que insulta Jesus? Deixar os pobres sem assistência social enquanto corta impostos de bilionários. Sabe o que insulta Jesus? Deportar o estrangeiro e separar mães de seus bebês”, disse.

 

James Talarico discursa após vitória na candidatura ao Senado pelo Texas. Foto: Reuters/Mike Segar/Proibida reprodução

O jovem político se referia à política anti-imigração de Trump, acusada de separar famílias, e à aprovação do projeto que tirou US$ 1 trilhão da saúde enquanto cortou impostos para os mais ricos.

O texano foi um duro crítico da plataforma política da extrema-direita republicana, que ataca minorias como transexuais, imigrantes e mulçumanos dentro dos EUA.

“A única minoria que está destruindo os Estados Unidos é a dos bilionários. Muitas das divisões neste estado e neste país são fabricadas por bilionários que querem que lutemos uns contra os outros, em vez de lutarmos contra eles”, disse Talarico em um evento de campanha.

A professora Camila Vidal, da UFSC, destaca que Talarico resgata uma tradição que teria sido abandonada pelo Partido Democrata, pelo menos, desde o governo de Bill Clinton (1993-2001).

“Vinda de um estado como o Texas, é bastante emblemático. Talarico traz de volta a religião e o cristianismo para o âmbito do trabalhador local, falando com essa classe empobrecida e gigantesca hoje em dia nos EUA. É uma grande surpresa”, comentou.

Primeiro muçulmano

Também chamou atenção a eleição do primeiro mulçumano para o Senado dos EUA, Abdul El-Sayed, pelo estado de Michigan, que fez campanha criticando os gastos do país com ajuda militar a Israel.

 

Abdul El-Sayed venceu a disputa pela vaga no Senado do estado de Michigan. Foto: Reuters/Ryan Garza/Proibida reprodução

No discurso da vitória, El-Sayed criticou o lobby sionista que teria gastado milhões de dólares para derrotá-lo em Michigan.

“Tentam rotular você como alguém cheio de ódio se você acredita que crianças palestinas deveriam poder crescer na terra de seus antepassados sem serem assassinadas com o dinheiro dos nossos impostos”, afirmou o senador eleito.

No dia da eleição, Trump anunciou a suspensão da ajuda militar para Israel de US$ 4 bilhões, o que, para alguns analistas, foi visto como uma tentativa de reverter a tendência de votos em candidaturas que criticam o financiamento de Israel pelos EUA.

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